TEXTOS DIVERSOS

Jorge Mautner sobre César Rasec

    César Rasec, há muitos anos atrás, escreveu um esplêndido livro sobre a minha pessoa, intitulado: Jorge Mautner em Movimento. César Rasec é poeta, letrista, escritor, pensador e interrelaciona sempre tudo com a História, sim, a História da cultura dos países e principalmente a História do país mais inacreditável do planeta que é o nosso país Brasil. O berço e a esperança da humanidade, por causa de sua Amálgama. Jorge Caldeira, anos atrás, referindo-se à minha obra, que é a Mitologia do Kaos, disse: o seu Kaos com K é aquilo que José Bonifácio de Andrada e Silva disse em 1823 definindo o Brasil: diferente dos outros povos e culturas, nós somos a Amálgama, essa Amálgama tão difícil de ser feita. César Rasec é esta Amálgama em pessoa, ele é 25 horas por dia poeta, escritor, pensador e irradiador desta Amálgama que tem muitos nomes, culturas indígenas, Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé, Padre Antonio Vieira, Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Jorge Amado, o Tropicalismo e por aí vai. O tempo todo César Rasec irradia as raízes do Brasil que anunciam o futuro da humanidade, ele me levou para a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim e falava entusiasmado sobre São Francisco Xavier, padroeiro de Salvador. Sua capacidade é absoluta, por exemplo como parceiro de Luiz Caldas, como poeta concreto e além-concreto, e, repito, sua intensidade em vivenciar o tempo todo como se fosse uma missão sagrada, a missão de irradiar a cultura da Amálgama.


    O próprio livro que ele escreveu a meu respeito é uma biografia e ao mesmo tempo uma recriação poética e filosófica reinterpretando tudo novamente, e a cada momento de um modo diferente. A ele devo também a iniciativa de ter recebido o Título de Cidadão Soteropolitano e na minha memória sempre estão vivas as nossas conversas a respeito destes pontos fundamentais que sempre são revisitados e sempre reinterpretados como singularidades tempo-espaço que se entrelaçam e ao mesmo tempo não se entrelaçam com outras singularidades tempo-espaço. Esta expressão é uma das interpretações científicas do mistério da natureza, mas ela já está presente nas culturas indígenas e em Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé. Eu me refiro à capacidade de reinterpretar sempre as simultaneidades que ocorrem o tempo todo em nossos neurônios em sinapses na velocidade da luz. Há oito anos atrás, mais ou menos, a neurociência descobriu que nossos neurônios são pura emoção. Mesmo a álgebra, abstrações, são emoções. Essa descoberta deixa o Romantismo num patamar até mesmo inferior, porque é mais que Romantismo, é Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé. Essa enorme ponte com encruzilhadas de simultaneidades está sempre descrita e retratada em tudo que César Rasec faz, escreve, sente e pressente. Ele é importantíssimo para nossa cultura, nossa história e é bom lembrar também que, em meio a tudo isso, ele tem a humildade dos que só querem distribuir a alegria, onde a vaidade é apenas aquilo que está na Bíblia: vaidade das vaidades, tudo é vaidade, eu sei. Tudo é como correr atrás do vento. E finalmente, como diz São Paulo: de que adiantaria se eu soubesse todas as línguas e ciências, e não tivesse caridade? E, para encerrar, cito o início de um dos primeiros sambas de Noel Rosa, que tem tudo a ver com César Rasec: aonde foi que Jesus ensinou sua filosofia? Foi na Bahia, foi na Bahia!!!!


Jorge Mautner, 5 de abril de 2016.

Rogério Duarte sobre César Rasec

O meu olhar sobre César Rasec e a sua Concrecoisa

Há quanto tempo conheço César Rasec?


Coisa de um ou dois ou três anos? Sei lá! 


O que é o tempo? 


É o espaço onde cabe essa energia criadora que se manifesta de forma tão multiforme: equações, músicas, ensaios jornalísticos e filosóficos. E mais: imagens em que a palavra ao mesmo tempo se desnuda e se esconde revelando, no entanto, a sua coisidade ontológica, se é que não é redundância.


É assim que vejo as Concrecoisas: poesia concreta, designer gráfico, pintura digital e algo que simultaneamente é tudo isso, nada disso e muito mais. Ali se reúne o filósofo, o tipógrafo e o matemático para, seguindo a trilha aberta por Décio Pignatari, Augusto de Campos, José Lino Grunerwald e Erthos Albino de Souza penetrar ainda mais fundo no recôndito reino das palavras e trazer de lá, como numa alquimia do verbo, a transmutação e fusão dos ícones, índices e símbolos, não como seco semiótico acadêmico que nunca passa da soleira da palavra, mas como ousado desbravador das profundezas hibernais do verbo.


Concrecoisa também pode ser encarado apenas como pura brincadeira com as palavras coisas que são tomadas antropofagicamente do seu significante, para daí gerar geométricas, irônicas e engenhosas combinações onde cores e linhas se extraem dando origem a uma metalinguagem sub e translinear que procura nos levar a uma libertação do sentido convencional, que é o limite onde se encerra o banal e se inicia a poesia.


Não é uma obra de estreia, já que Rasec é autor de alentado volume sobre a vida e a obra de Jorge Mautner e incansável parceiro de múltiplas produções multimídia como o também surpreendente Luiz Caldas. Assim, é de se esperar que esta nova produção multimídia tenha o mesmo itinerário exitoso das suas outras produções.


Não sei se cabe aqui comentar sobre os inúmeros debates lítero-músico-enxadrístico nesses anos (quantos?) que tive a alegria de conviver com Rasec. Entretanto, uma pequena coisa: muito dos frutos dessa amizade ainda estão por vir, como a sua valiosa contribuição para a realização do CD do Gita Govinda e outras milongas mais. Este texto estava pronto, guardado na minha garganta, que recito para você neste dia 2 de outubro de 2008, em minha casa, à tarde, em Salvador.

Rogério Duarte

Walter Franco respira fundo dentro de quem ama a sua música

César Rasec é doutor em Letras, jornalista e compositor

(Texto de minha autoria que também foi publicado, com exclusividade, em <https://www.bnews.com.br/artigo/1063,walter-franco-respira-fundo-dentro-de-quem-ama-a-sua-musica.html>

Resolvi escrever este texto dedicado a Walter Franco porque ele é, para mim, linha de frente da vanguarda da música brasileira. Para a minha tristeza, o seu coração parou de bater no dia 24 deste mês (outubro de 2019), aos 74 anos. 

Escrevo também para externar a minha admiração, para lembrar de homenagens feitas por mim e Luiz Caldas, em vida, e para dizer que as suas canções permanecem tocando dentro das pessoas que curtem autenticidade. 

A minha admiração começou para valer na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, quando eu estudava jornalismo, depois de ser transferido de Matemática, lá nos anos de 1990. Eu estava com 27 anos.

E o gostar da obra de Walter não ficou estacionado no tempo. Ele foi se transformando para melhor com o cair de cada grão da ampulheta que conta o meu envelhecimento.

Eu já apreciava os artistas chamados de malditos da Música Popular Brasileira (MPB). Walter Franco estava no grupo que tinha Jorge Mautner, Sérgio Sampaio, Tom Zé, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, dentre outros que foram rotulados criminosamente pelos meios de comunicação, que participavam do jogo de interesse da indústria cultural, sobretudo a indústria do disco.  

Confesso que nunca gostei de rotulações e muito menos do carimbo maldito, que era usado no artista que tinha uma obra que destoava dos padrões preestabelecidos.

Os grãos da ampulheta continuam caindo... Os anos passam...

Como o tempo galopou no seu próprio dorso, chego no ano de 2004. Eu estava compondo com Luiz Caldas para o CD Melosofia e também para o disco décuplo, lançado em 2009. Buscando enriquecer os dois projetos, surgiu a ideia de Luiz gravar uma canção de Walter para o DVD do show Melosofia. A escolhida foi "Quem puxa aos seus não degenera", que entrou como faixa bônus do projeto de 130 inéditas (CD Uma Maria), além de fazer parte do DVD "Melosofia", gravado ao vivo e lançado em 2005. Luiz arrasou na interpretação e no arranjo! Outra faixa bônus foi Oh dah ho, de André Abujamra, no CD Perguntas e Respostas. 

Para a canção ser gravada, entrei em contato com Walter, que deu sinal verde. Ele gostou muito do resultado. Desde então, sempre estávamos trocando ideias, papeando por e-mail e por telefone. Reproduzo alguns dos nosso papos, por e-mail.

Ano de 2009.
">Carismatissíssimo
>Palíndromo
>César Rasec.
>Um grande abraço .
>E um Ano novo
>sempre novo.
>Grande abraço.
>Do amigo.
>Walter Franco."

Como forma de retribuir tamanha bondade, liberando a canção, eu e  Luiz Caldas homenageamos Walter na canção "Bossa na filosofia", lançada em 1º de julho de 2017, no CD do mesmo nome.
Diz a letra: "Baden mora na harmonia/ Eu moro na bossa, quem diria!/ Eu moro no morro/ Eu moro no samba/ Minha filosofia é viver/ Como um bamba/ Tocando a vida/ Longe do sofrer/ Porque no caminho/ Minha poesia você vai ler/ Eu fico na bossa/ E não quero deixar/ Nunca de pensar em você/ Mautner mora na filosofia/ E Walter na cabeça, ou não/ E todo mundo vê que um dia/ Tudo não passa de uma grande ilusão/ Gilberto causa alegria/ Caetano pura satisfação/ Cabeças feitas na Bahia/ Poesia além do coração".

Mandei a canção por e-mail e Walter respondeu assim (reproduzo sem fazer correções):
"Sabendo que Caro também significa querido,agradeço com muita alegria a homenagem sua e de Luiz Caldas ao lado de nomes tão especiais.Para mim é uma honra meus bons.
Outra coisa. Por respeito aos Estatudos da ABRAMUS  e a toda a nossa classe confirmo que já não faço mais parte da Diretoria.Digo isto também com alegría e a certeza do dever cumprido  e um abraço fraterno  a todos. os amigos que lá deixei como diria Luiz Gonzaga. E mais outra observação...O que foi aquilo que eu vi na sua entrevista com Bial,Mestre Luiz Caldas. Fiquei literalmente emocionado e quero estar com vocês. Aquele solo de guitarra que vc. apresentaste foi genial como nos disse essa semana em um  almoço, o meu amigo e agora meu Biógrafo Tales de Menezes Jornalista de Primeira Grandeza na Folha Ilustrada. Quero trabalhar com vocês meus bons,Caros e queridos Palíndromo Cesar Rasec e Luiz Caldas simples.
Ge-ni-al na conversa com Pedro Bial,Foi uma Biaula de talento e simplicidade".

Lembro também que prestei homenagem na Concrecoisa do dia 15 de novembro de 2013. (http://concrecoisa.blogspot.com/2013/11/concrecoisa-ou.html)
Concrecoisa Ou
Diz o texto: "A Concrecoisa Ou é uma singela homenagem a Walter Franco.
Ele (Walter) saiu com o “ou não” de forma musical, em 1973, num disco branco com a foto de uma mosca.
Walter Franco entrou para a história da música brasileira por causa deste e de outros trabalhos, sobretudo por causa de sua irreverência e inventividade.
Com o tempo, o “ou não” foi fisgado sabiamente por Caetano Veloso, que de tanto falar o “ou não” acabou apadrinhando a expressão walteriana.
Certa feita, num papo por telefone com Walter, ele me disse contente que Caetano tinha falado que o "ou não" era de Walter Franco.
Ao dar o crédito, Caetano Veloso ficou com crédito.
Acho que este crédito deveria ser mais e mais reverberado.
Todos ganham com a inventividade do outro e a história fica em sintonia com a verdade.
Aqui na Concrecoisa, o “ou” transita numa escada de “não” e de “sim”. São degraus onde a dúvida (o ou) pode subir ou descer.
Sim, ou não!
Não, ou sim!
Viva Walter Franco!
Ou não?!"

Os grãos da ampulheta continuam caindo... Os anos passam e as nossas mensagens ficaram guardadas nas boas lembranças que pulsam.

Viva Walter Franco, sempre eterno, desde quando nasceu! 

Em tempo, o título deste texto remete à canção "Respire fundo", de Walter, lançada no LP de 1978.

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